conversa de m#$%

Venho aqui relatar um episódio que já me aconteceu algumas vezes mas não quero guardar para mim. Haverá por aí pais ou mães que reconhecerão a situação, já que não quero ser o único neste barco e guardar este segredo para mim.

Na segunda feira passada, fiquei encarregue de vestir o Zé Maria, dar-lhe o pequeno almoço e levá-lo à escola. Mesmo admitindo que não tenho jeito nenhum para vestir bebés\crianças, pensei que em 20 minutos conseguia realizar estes 3 objectivos. Eram 9 e sentia-me seguro e com tempo de reserva.

O primeiro pingo de suor escorreu mal vi o que a mãe do Zé Maria tinha escolhido para o jovem Amado vestir. Tinha alças, muitos botões e era daquelas peça de roupa que não se percebe qual a parte da frente e qual a parte de trás. Se é necessário cruzar as alças, dobrá-las, ou torcer e fazer nós. Lá ganhei coragem e fui enfiando pernas onde eu achava que eram para enfiar, braços pelas alças e interiormente rezava para que desse para passar no exame. A ansiedade era semelhante aquela com que me deparei durante anos na faculdade. Enquanto a criança se torcia, ria e gozava literalmente comigo, largava ocasionalmente um traque, que eu associei ao facto de estar a dobrar a criança em excesso. E como todos sabemos que os puns matinais são saudáveis, não fiz caso disso. Após uma luta titânica que durou cerca de 14 minutos em que eu vesti o Zé Maria 3 vezes, sentei-me, limpei o suor da testa e olhei para o ZM enquanto o rodava para confirmar que estava tudo no sitio. E parecia estar. Ao mesmo tempo que o orgulho de missão cumprida se instalava na minha alma, o meu nariz torceu ligeiramente e foi aí que senti. Um cheiro nauseabundo que percorreu todas as células do meu corpo e que me deu um pequeno vómito. Já estive ao pé de puns mal cheirosos, mas estavamos ali perante um tipo de recorde do campeonato do cheiro. O Zé Maria tinha um animal morto dentro dele. Só podia. A acidez daquele odor penetrava na atmosfera e dentro de mim, mesmo com o nariz tapado, e o ZM lançou um pequeno sorriso como que a dizer (como o irmão dele faz): "Pai, já fazi cocó!!".

Eram 9h20. Fiz o que qualquer gestor de projecto faria. Avaliei o tempo disponível, as tarefas a fazer, e soluções para juntar as duas equações. 5 minutos para mudar fralda, 5 minutos para vesti-lo novamente e 5 minutos para pequeno-almoço e só ficava atrasado 10 minutos. Não me parecia tão grave como isso. Dispo a criança com facilidade, deitado na cama dele quando me apercebo da realidade da situação. Meu Deus. A criança tem as costas todas cheias de cocó. Saiu tudo por fora. E o cheiro.. Meu Deus e o cheiro... Não estou a acreditar. Vejo bocados de milho, bocados de cenoura, e outras coisas que só posso descrever como "esparregado que se calhar não é esparregado". Como ninguém ia acreditar em mim, fui ao bolso buscar o meu telemóvel para registar o momento para a posteridade. Eis senão quando vejo que as minhas mãos já sofreram consequências deste tornado de m#$#$ e que já estou literalmente todo cagado... Acho que foi neste momento que verti as primeiras lágrimas.

Peguei e mim e na criança e fomos para o banho. Não havia outro hipotese. Sacana do puto ia-se rindo.
9h30. Saio do banho. Realizo que já passou meia hora e estou exactamente no mesmo momento que estava meia hora atrás. Aliás estava pior, porque ainda não me tinha vestido. Também a pior porque tinha uma cama cheia de cocó e pingos espalhados pela trajectória incerta que os dejectos tomaram. Acelero. Dodots para um lado, roupa para outro... Admito que acho que pus coisas no lixo que não devia. Sei que em 10 minutos tratei de tudo. Estava pronto para ir. Só faltava o pequeno almoço. preparei um leite com chocolate e pensei. Bebes no carro e despachamos a coisa.

São 9h45. Chego à escola. Atrasado. O puto entornou o leite todo em cima dele próprio. Continua a rir-se. Entrego-o ao professor. Dou-lhe os sapatos que a criança tirou. Olham para mim como se fosse o pior pai do mundo. Eles dizem que não mas estou a ser julgado. Aposto que quando virar costas vão olhar uns para os outros dizendo não com a cabeça.

Não faz mal. Eu sei pelo que passei. E sei que daqui a umas horinhas, a criança vai-se borrar toda e eles é que vão resolver. Rio-me. Vou-me embora. Tenho aquela sensação de dever cumprido e até me sinto realizado. Se fosse fácil também não tinha piada.

Era só isto...

PS - escrevo "criança" porque enquanto escrevia sentia-me enojado e com pequenos picos de ódio. E isso com um filho não deve\pode ser. Por isso ficou a "criança". Espero que percebam

João B. Amado

1 comentário:

  1. :) Não pude deixar de me rir com este post. Acho que aqui está bem expressa a ansiedade pela qual muitos pais passam... com um toque de humor espetacular.

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