Dia D

Provavelmente o dia do ano mais dificil de digerir.
Passava-me completamente ao lado até que me bateu à porta. Ainda não o deixei entrar e não sei se alguma vez vou deixar. Não aceito ainda que tenho um filho deficiente. Aceito que tenho um filho com trissomia com facilidade, aceitava mesmo ainda antes de o conhecer, mas deficiente é outro campeonato.

Há línguas em que o termo é quase poético "challenged", acho perfeito.  Na nossa não é bem isso. Associas a gente que se baba, cheira mal, é incapaz, feia, tarada sexual, esquisita e todo um rol de coisas apetecíveis. Associas a isso mas quando te falam delas dizes com aquele ar amoroso pois é especial, é bonzinho, um amor e até anjos enviados e escolhidos a dedo. Eu própria achava tudo isso e às vezes ainda acho ou mesmo que não ache uso a palavra deficiente para gozar com qualquer. Gostava de dizer que não o vou fazer mais mas sei que provavelmente vai acontecer até porque o faço sem maldade.

Depois realizas que o mal dos outros está em ti. Criou-se esta categoria na sociedade que é a chacota total e está errado. Se assim não fosse não teria problemas em ter três ou quatro filhos desses.
Pomos tudo no mesmo saco. Saco do lixo sem reciclagem. Até aceitamos que lá no meio haja um ou outro herói, mas naquele contexto específico. Se a pessoa é estúpida tem desculpa, não devia. Não chegas a querer conhecer a pessoa a fundo nem te consegues focar bem depois de ouvir a palavra. Menos um dedo ou menos uma perna acaba por ser semelhante. Está errado. São pessoas e se pensarmos bem podemos ser nós, podem ser nossos. São pessoas que não merecem só um rótulo: o preto, o coxo, o albino, o menino que viveu numa instituição, o rico, o pobre, o génio.  Porque mesmo o génio pode ser um perfeito deficiente no que toca a lidar com pessoas, pode ser execrável e impossível de aturar.


Por isso como mãe de alguém que pode ter esse rótulo de deficiente e com tudo o que isso me ensinou, da próxima vez que o problema se puser olhem para a pessoa, falem com ela e não tenham pena. Ela é como vocês e pode ser que já tenha só por si a vida dificultada não vale a pena contribuir mais para isso.

rosa amado

1 comentário:

  1. Bem a ideia não era ser agressiva. Era uma lembrete para mim também que tenho medo do palavrão e se o achasse inofensivo nao tinha. Beijos a todos

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