Missão Impossível - parte 1

Caríssimos,

Contrariamente a todas as tristezas e tragédias que somos obrigados a ver nas noticias todos os dias, há outros momentos, em que a falta de expectativas, nos levam a testemunhar actos e acções que nos fazem renovar a fé na humanidade. Esta sexta-feira tivemos a sorte de poder redescobrir como certas pessoas, comuns dos mortais, numa juventude humilde invejosa, mudam o mundo e "tapam os buracos" que o resto do mundo está ocupado (sem culpa porventura) em não ver.

Estou a falar das missão país 2016 (http://www.missaopais.pt/). Fomos convidados para participar, tirámos um dia de férias e pusemos-nos a caminho de Odemira. O facto da Tanica estar presente na missão de Odemira ajudou obviamente. Pediram-nos para dar um testemunho de casal e conhecer o trabalho que por lá fizeram durante uma semana, após uma preparação de vários meses. Humildemente aceitámos e foi com muita vontade que arrancámos em direcção a sul, finalizando o trilho pelas sinuosas esverdeadas estradas alentejanas que nos trazem a memória saudosa de tempos mais calmos, mais simples, mais fáceis.

Chegados a Odemira, fomos ter com o grupo à escola primária da zona, que nos surpreendeu pela qualidade das instalações e dinâmicas já habituais. Almoço de garfo verde (vegetariano) em mesas miniaturas, apresentações, café e fizemos-nos ao caminho. Fomos visitar o lar de idosos da Santa Casa da misericórdia. Admito que fiquei chocado pela falta de condições. Uma sinestesia negativa, desde o cheiro ao toque nas paredes. Senti-me incomodado e de forma não altruísta. Senti-me melhor imediatamente quando vi estes jovens a animar mais de 1000 anos de experiência de vida. A darem significado a essa vida. A admirar a experiência e a dar o respeito que a terceira idade merece. Viam-se sorrisos não forçados em todo o lado, no meio duma jogatana de bingo, onde por entre linha e bingo se jogava involuntariamente ao telefone árabe.

Fomos personalizar a visita e conhecer alguns hóspedes mais recatados, com menor mobilidade, com menor capacidade, com menos cabeça. A demência é uma coisa que me faz muita confusão, também por já a ter vivido muito perto. Mas passámos meia hora a falar com a Piedade, cuja alegria era contagiante, com alguns momentos de pura loucura, e outros duma lucidez que me faziam inveja.
Fomos depois de outras conversas, ver as novas instalações deste lar. Eram instalações de topo, mas por uns pormenores administrativos, e apesar de estarem prontas há 2 anos, não eram utilizadas. Viemos a perceber que era por causa duma peça do elevador e dum desentendimento entre as duas empresas que tinham responsabilidades sobre o elevador. Uma verdadeira vergonha, entre outras neste nosso país que merece muito mais, pelas pessoas que lhe deram tanto.
Enfim, vimos que os próximos tempos iriam ser bons, já que o novo lar iria ser top dos tops.

À noite, fomos dar o nosso humilde testemunho. Basicamente, o que é ser marido e mulher, contrapondo com o que é ser solteiro ou levar por exemplo uma vida de vocação religiosa...Não sei se ajudou alguém, mas pronto, foi uma dinâmica diferente e uma experiência diferente para nós casal. 

Mas de tudo o que vimos, ficámos impressionados com a dedicação, generosidade, humildade, coragem destes jovens. Universitários a espalhar boa onda. A dar pelos outros. A fazer o que muito poucos fazem mas que todos deveriamos fazer. Ser mais e melhor. Ser missão.

Missão impossível

João B. Amado

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