A minha noite com a mariazinha

Tia Maria tem 51 anos e é irmã de uma tia nossa. Mariazinha para a família porque é a irmã mais nova de 8, Mariazinha para mim.

Essa minha tia tinha um jantar e sendo que a Mariazinha está a ficar esquecida [coisas da idade que na T21 efectivamente chegam mais cedo] disse-lhe que a convidava para jantar lá em casa, iam todos sair fazíamos-mos companhia uma à outra. A Tia preocupada achou que ela me podia chatear, querida tia nem sonha a alegria que tinha em tê-la ali comigo.

Chegou e foi logo uma emoção com os miúdos. Ela a querer enche-los de mimo e eles a adorar o colo dela. O Xavier nem tanto, mas já se sabe, é esquisito. Depois deitei-os e ficámos por ali.

Enquanto eu acabava o jantar ela punha meticulosamente a mesa. Chegou o João e como em todo o tempo que lá esteve foi de uma educação irrepreensível. Cumprimenta cheia de vontade, elogia a casa ou o que for, e remata com um "é João quê?", que soa só a delicioso.

O jantar era uma bosta, cansada e sem grandes ideias desenrasquei uma carne desenxabida e um arroz meio colado, sei que ela sabe que não era propriamente gourmet, via-se na expressão, mas não foi por isso que não elogiou. E depois devagarinho e educadamente perguntava se tinha mais manteiga ou molhos para acrescentar, se sim dizia "se não for incomodo gostava muito". Uma delicia de companhia, até as facas de manteiga foram elogiadas como potentes serrotes.

A Maria, como a maioria de nós foi criada pela mãe, e há 50 anos quando não se acreditava que as pessoas com t21 pudessem ser funcionais ela educou a filha para tudo isso. Com as limitações que deve ter tido de integração dela na sociedade ensinou-lhe de tudo em casa e ela é realmente um luxo. a certa altura penso que até trabalhou num restaurante. Mas o que realmente me diverte nela, e nisso não na versão patética da coisa, é a maneira de falar à antiga. Correctíssima mas com expressões iguais às que me lembro de ouvir da minha avó, deliciosas, e que me trazem umas saudades incríveis.

Entretanto o joka levantou-se da mesa a meio do jantar porque tinha futebol marcado, o das quintas. E ela indignada, e porque não explicámos, "então o joão não vem para a mesa? Sai assim sem acabar o jantar?" toda a razão mariazinha "homens!".

Depois fomos as duas assistir a um filme, nicholas sparks pareceu-me o ideal para duas miúdas lamechas, perguntei-lhe o que achava e ela diz na calma "por mim tudo bem, gosto de tudo" e um sorriso gigante meu, de tanto que ouvimos reclamar a toda a hora que bom que tudo o que eu possa sugerir seja fixe.

De vez a vez pergunta se não se importa que use a casa de banho e lá vai ela. De uma delas a Belém segue-a e entra na casa de banho, conheço as duas sei que não tinha mal, mas foi uma delicia ouvi-la a "praguejar", no tom mais educado de sempre, a fúria de ter a Belém alí com ela. Ouvia de fora, e sim podia ter ido lá mas ela é bem crescidinha e resolveu, e eu estava a adorar reviver o praguejar "da minha avó": "olha-me esta agora veio para aqui. Sai daqui. O que é que me foi foi acontecer agora com esta aqui. Realmente a mim acontece-me de tudo. Raio da bicha, sai! [belém sai]. E não pode uma pessoa estar descansada na casa de banho. Ele há coisas". Ainda perguntei ao fundo se precisava de ajuda a expulsar a cadela e ela apercebeu-se de que tava a praguejar alto e calou-se numa de "upsss", foi para mim hilariante de assistir (repito, não numa de gozo mas de situação cheia de graça na maneira como pragueja educadamente e à antiga).

Depois retomámos o filme e às tantas ela já cansada de lamechice, olhou para o relógio e diz-me que já são 11h, "sabe é que eu não costumo sair à noite, está muito agradável por aqui mas as minhas irmãs devem estar a ficar preocupadas que não vou para casa", aqui o tal esquecimento da idade, mas ainda assim deliciosa a delicadeza com que me diz "tou farta disto, já bazava". A Teresinha estava quase e disse-lhe que podia encostar-se e descansar que ela não tarda estava aí.

E assim foi, ficamos as duas no filme de romance até a minha Tia chegar.

E num dia em que constato que o zé anda tão mal criado e embirrento, obrigada querida tia Teresa, por me trazer a Maria e me descansar, caso ande distraída, que o futuro pela frente é brilhante. E que seja o que for que venha a ser, que ele e outros, sejam sempre educados e tão boa companhia. Com tanta gente a dizer mal de tudo que existam pessoas que tenham sempre elogios. E mesmo que não sintam sempre tudo perfeito, como foi o caso, que tenham a preocupação de agradar e nos massajarem o ego com mimo.

Volta sempre Maria.


 [fiquei de enviar as fotos Mary, eu sei enviarei de seguida]

rosa amado

2 comentários:

  1. Que texto lindo Rosa! Como sobrinha direita da tia Mariazinha, fico comovida de ler a forma como a descreve. Coisas tão simples e que tantas vezes nem valorizamos na nossa querida Tia. E essas expressões sempre fizeram as nossas delícias também, e estou a lê-la e a imaginar perfeitamente a cena (linda a cena com a cadela na casa-de-banho!) Um beijinho!

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    1. Olá Teresa. Foi mesmo um gosto te-la, optima companhia.
      Espero que os meus filhos venham a ter esta educação e dar sempre valor ao melhor da vida como ela faz com tanta naturalidade.

      Grande grandr beijinho e obrigada pela mensagem tão querida

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