O Camões Natalício

O nosso filho Manel tem 6 anos. Tem virtudes que vai buscar a avós ou bisavós porque em nada se aproximam de mim e da Rosa. É arrumado, organizado, disciplinado e tem uma memória de fazer inveja a muitas pessoas. É sempre boa onda, e apesar de muitas vezes ser excessivamente sensível, arranja maneira de ser traquina mas um traquina bem educado.

Apanhei esta pérola espalhada pela casa. Uma carta muito honesta ao pai natal e que vale a pena analisarmos, qual composição de escritor em que forma e conteúdo se unem de forma perfeita.



Original:

Eseta | vola | é | do | Manuel

Pai Natal tás bõe | Eu | tanho | coizas | para | te | izere | ce | eu | sefasfavoure | podes | dare | uma | cadreneta | de | a | Liga | 2016 |2017 | e cromus.

Tradução:

Esta folha é do Manuel

Pai Natal, tás bom? Eu tenho coisas para te dizer, se fazes favor. Podes dar-me uma caderneta da Liga 2016\2017 e cromos?

Análise macro

1) O jovem Manuel tem um sentido apurado de posse e não quer que hajam possíveis enganos. Aquela folha é dele e não há maneira de haver falcatruas ou poder pensar-se que seria outro menino a fazer o pedido

2) Na escola do jovem Manuel, existe um método para separar palavras que se o ajuda a ele, não ajuda ao leitor

3) O Manuel no segundo trimestre deverá melhorar a caligrafia e a ortografia e eventualmente a estrutura de frases, apesar de haver textos do Pessoa ou do Saramago de pior sintaxe ou mesmo que literalmente não fazem sentido ao comum dos mortais

Análise de conteúdo:

1) O Manuel tem uma relação de "tu cá, tu lá" com o pai natal. Parece-me bem. Também é um gajo que responde pouco e não merece um tratamento de "você". 

2) O Manel como manda a boa educação permite a introdução dum diálogo com possível resposta, mostrando interesse real em saber como está de facto o pai natal.

3) Depois o Manel torna-se ligeiramente arrogante e quiçá agressivo. "Tenho coisas para te dizer" é claramente quem tem problemas por resolver e que vai de forma assertiva abordá-los com o pai natal, ficamos a pensar que o tom da carta vai ser negativo.

4) Ao mesmo tempo que parece ameaçar o pai natal, continua a demonstrar boa educação, já que assertivamente avisa que tem coisas para dizer, mas depois pede licença para as dizer. Um pouco ao estilo de Pessoa, parece que, Manel Amado possa padecer de bipolaridade, ainda que esperemos seja só na escrita.

5) Depois de confundir o leitor com um misto de boa educação e avisos inquietantes, Manel remata com a verdadeira razão da carta. Quer uma caderneta. Já o pedido aqui vem muito completo contrariando a falta de pormenor anterior na carta. Agora quer uma caderneta, e tem que ser a da liga 2016\2017. E tem que ter cromos. Não vá o pedido ser pouco especifico e aparecer uma caderneta qualquer em casa e sem cromos.

6) Manel Amado depois de dizer o que quer, pára de escrever. Não sabemos se foi interrompido, se foi preguiçoso ou se ficou sem a boa educação, porque não agradece nem se despede nem assina a carta. Poderia ser redundante se de facto já indicou que a folha era dele, mas ficava-lhe bem. 

Conclusão:

Claramente o escritor tem sentido de posse e sabe bem o que quer e demonstra-o de forma inequívoca e assertiva.Por estas razões certamente receberá o que pede, já que não me parece um pedido descabido e em muito alegra o pai dele, o seu amor por futebol e cromos.

Agora a sério, a vida existe para estas "cartas" existirem. Não há conforto maior cá dentro do que ler isto, sentir uma alegria imensa e ainda pensar que este miúdo tem potencial. Que este post fique eternizado pois muito me alegrou poder escrevê-lo. És o maior Manel Amado!

João B. Amado

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