Pinguinhas e o update familiar

Em 2008, quando a nossa vida era só a 2 e vivíamos a nossa aventura em Moçambique compramos um carro em vigésima mão para nos guiar pelos caminhos esburacados de Maputo e arredores. Apesar de ter problemas diários de bateria, aguentava-se bem e foi um bom companheiro. Na altura chamávamos à nossa carroça moderna de pinguinhas, pelo que gastava e pelo que vertia.

9 anos depois, quiseram as circunstâncias familiares e profissionais que los Amados precisassem duma nova carroça, mas desta vez para 6 pessoas, armas e bagagens. No entanto, as restrições orçamentais não nos deixavam ambicionar muito e dentro das possibilidades, a minha querida mulher e eu tínhamos vontades opostas. Nada levava a crer que discussões pudessem surgir nesta questão, já que eu inocentemente assumia que teria a última palavra como líder da tribo, guardião das questões mecânicas, e condutor oficial da família. No entanto, Rosa Amado, trouxe a baila à necessidade\vontade\paixão irreverente de ter um furgão. Sim, um furgão. Não é a melhor palavra para tal tipo de bólide. Eu chamo-lhes caixões com rodas. Na forma romântica: todos nós adoramos a ideia de passear num pão de forma vintage, remodelado, limpinho, com motor funcional, cheirinho a verão, sem as preocupações de manutenção e acessórios desfuncionais. na vida real chama-se furgão, ou como eu- caixão com rodas.
Após recusar veementemente a ideia, tentei arranjar uma forma de compromisso, que na minha cabeça era uma formalidade de mostrar por a+b que com o nosso orçamento e os argumentos técnicos não haveria tal hipótese. O compromisso era ir ver e analisar possibilidades que estavam no mercado e trazer relatórios verdadeiros e honestos (e na minha esperança interna desanimadores)

1) Desloquei-me a Fátima para a primeira. Carrinha vintage à la equipa de futebol distrital, cor de ovo. Por fora nem parecia mal. Mas mal me sentei no lugar de condutor vieram todos os meus instintos recusar a peça. Puxar a ceninha do ar para ligar o carro, mudanças no volante, motor com barulho de pré-explosão e cheiro a sucata. Arrisco e vou dar uma volta. Volante à camião, que pouco virava, travão que não travava, mudanças que não mudavam. Foram dos 500 metros mais aterradores que fiz, e só fiz uma recta e meia volta (a muito custo). Teste negativo. Ficava cheio de argumentos e a ideia de carrinha furgão começava a evaporar-se. Disse à esposa que só iria ver mais um para dar a prova provada que não haveria condições para satisfazer o seu desejo automecânico de design e pinta superiorizar-se a funcionalidade e conforto.

2) Para a segunda tentativa desloquei-me a Setúbal, na esperança que os ares do Sado fossem mais simpáticos com carrinhas furgão dos anos 80\90. Hélas, a segunda tentativa foi mais desanimadora, porque o carro nem chegou a andar. O maior problema nem era o facto de não ter um pneu. O facto de ter ficado preso dentro do carro durante 5 minutos sem conseguir sair também foi um desafio diferente. Ainda percebi que havia um buraco no chão mas não percebi se isso era positivo ao negativo. Nem vale a pena falar das barras de metal enferrujado ou das portas que não abriam. 

Parecia que finalmente não haveria necessidade para mais argumentos. Ia ser à maneira do senhor Amado e pronto. Uma carrinha de 7 lugares, familiar, já usada, e provavelmente com problemas, mas como dizem os senhores dos Xutos, ou do tio Frank Sinatra, seria à minha maneira!

Mas não foi...

Discussão para aqui, discussão para ali, teria que ser da outra maneira. Engoli o orgulho e fui pesquisar mais e melhor. À terceira foi de vez. É de 2001, tem 200 mil quilómetros, é branca, tem 8 lugares e é um mutante de furgão\ carrinha de jogadores futsal. 
É o que é e o resto é conversa. A Rosa tá feliz da vida com o novo pinguinhas e já pensa como vai pintá~lo e estofá-lo. Eu só penso na explosão do motor quando chegar pela primeira vez aos 100km\h. Mas é a vida. E depois desta vou telefonar ao Miguel Araújo para escrever a sequela dos "maridos das outras" chamada " as mulheres dos outros". E é isto...

Parabéns ao novo membro da familia, o Pinguinhas versão familiar!


João B. Amado

2 comentários:

  1. Haja coragem! Adorei!
    Espero de coração que o furgão vos leve a destinos muito felizes e sobreviva aos 100Km/h. Páscoa feliz Los Amodos, you rock!

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  2. João, já há uma versão das "mulheres dos outros" - https://www.youtube.com/watch?v=wJrhlar22xw ;)
    Bjs!
    T.Maria

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