As primeias linhas de Salamanca

A ideia era ir escrevendo e descrevendo os dias para 1) mais tarde lermos e revivermos 2) partilhar convosco esta experiência; a realidade é que a experiência exige que digiras ambiente para que consigas escrever uma frase com sentido. Não sei se já cheguei a esse ponto mas vou tentar.

Estamos numa instituição onde vivem miúdos que foram retirados à família por estarem em situação de risco - seja ele qual for. Vivem cá 9 miúdos dos 7 aos 15, 3 rapazes e 6 raparigas. Alguns deles vão passar férias às famílias - a primeira das coisas que a mim me custa a digerir, se têm famílias capazes porque não tratam deles o resto do ano?! - outros ficam aqui, os três mais novos costumam ficar.

[As situações que trazem estas crianças até aqui é de tudo o mais difícil de digerir; partimos a cabeça a pensar como podemos compensar tudo isto e damos o melhor. Talvez nunca possamos mas amor vale sempre e são capazes de vir a ser bons e felizes, com tudo o que merecem na vida]

A casa ajusta-se para nos encaixarmos e dormimos todos juntos. Eu, o João e o xavier dormimos no quarto das irmãs (quarto de vigia da casa), a tanica, o manel e o zé dormem no quarto com o Luis. Dois colchões corridos no chão para os mais novos e a cama para a tanica crescida. Manel dormiu pela primeira vez em saco de cama e tem sido o delírio, tudo para ele é aventura e está a amar estar por cá. O luis é mais velho um ano e dão-se lindamente, entre o português e o espanhol brincam de tudo e com tudo. São a alegria um do outro. Das mais velhas tembém, brincam todos com todos. Nem o manel, nem o zé, nem o xavier estão como voluntários, eles estão  a ser o que são e como são e partilham isso com os de cá da forma mais saudável que a vida tem. Não perguntam porque estão aqui, ou porque é que é assim ou assado, entram no esquema e tudo o que querem estes dias é ser parte disto que aqui há. Para os de cá recebe-los com orgulho é ótimo, mostrar-lhes o que é deles e tudo o que foram conquistando. Ver que os nossos querem ter aquilo que eles têm. Sem saberem estão a ajudar-se a crescer.

De manhã o manel e o zé descem com o luis à caça do pequeno almoço, escadas abaixo e encontram uma irmã de braços abertos para isso tudo. Depois brincam que nem uns doidos até que o resto da casa acorde e todos juntos façamos alguma coisa juntos, estamos de férias é o que as famílias grandes de ferias fazem. Eu, o João e o xavier estamos em cura de sono e temos dormido quase 12 horas por dia. Lá para as 11h estamos listos e prontos para as atividades do dia. O João tem arranjado as bicicletas, a tanica organizado a horta e eu tou de braço direito ao que as irmãs mais precisem no momento. Ultimamente tem sido organizar presentes para a grande chegada dos Reis Magos no dia 6 - dia de receber presentes.

Hoje vamos fazer uma visita a um bairro social. Amanhã vamos todos ao Teatro e por aí adiante vamos vivendo com eles estas férias.

Tenho estado e conversado muito com a minha amiga ritinha. Ela partilha as "angústias"/alegrias de criar nove e eu as minhas de criar quatro. É giro ver que temos os mesmo medos e as mesmas alegrias. Queremos as duas dar-lhes o melhor futuro do mundo e principalmente ferramentas para serem felizes. É giro de ver e de sentir que ela, tal como eu, tem a vida que sonhou ter.

Ser irmã não é nada do que eu achava que seria em conceito. Os doces conventuais e as vidas só a pregar estão muito longe desta realidade delas no dia-a-dia. Mas conto-vos isso um destes dias com mais calma.

E ficam milhões de linhas com histórias por contar, talvez amanhã saiam mais linhas.

rosa amado

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